TEIAS
Cleide Canton


O sereno acumulou-se na pradaria
e a teia reluziu no raiar da aurora.
Havia passado despercebida
como também passam as teias da vida.
Palavras e atitudes
visando um desfecho arquitetado
vão tecendo suas tramas invisíveis,
desviando atenções
com desculpas amenas,
inventando justificativas plenas,
arranjando saídas para delicadas situações,
contornando a verdade com outras versões,
perseverando em tolos argumentos
inteligentes e perspicazes,
como o passar de linimentos
sobre feridas que não causam dor...
E o pobre ser mortal,
sedento de amor,
deixa-se envolver
com submissão total.
Os sentidos funcionam dependentes
dos ventos que balançam
as  teias que se trançam.
Confunde-se a vontade
no sonho que se tornou
distante demais da realidade.
A beleza da superfície
impede a visão de profundidade.
Mas o sereno
dosado pelas mágicas mãos da mãe Natureza
o acorda numa manhã qualquer
tarde demais para um retroceder,
cedo demais para esquecer.
Momento de reclusão
onde o amor a si próprio
se faz presente, é guardião.
E o encontro consigo
é aplaudido pelo sol que nasce.
Ei-lo livre das teias,
como se isso
por si só bastasse.


 SP, 19/11/2004
19:40 horas

 

 

 

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Poesia editada por Cleide Canton em 14/05/2005

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