RASGANDO O VERBO
Cleide Canton
 
 
        Hoje sinto uma necessidade imensa de lavar a alma. Foge-me a graça da poesia, a beleza do ritmo, da harmonia, o encanto do jogo de palavras. Foge-me o amor, aquele que tento abraçar e trazer na alma para estar plena. Foge-me a garra, a força. Foge-me o dom... Por mais que tenha me preparado para este "pacote" de extremismos que um bando de aloprados está conseguindo impor à humanidade, não consigo impor a mim mesma a tolerância para o que está acontecendo, tranqüilamente, diante de nossos olhos.
    
    Confesso que não teria motivos para tanta preocupação se fosse pensar apenas em mim. Sou uma mulher realizada, não tenho problemas de saúde nem financeiros. Até seria mais sensato eu dizer: "Dane-se o mundo"!  Mas estaria mentindo. Não condiz com o que realmente penso. Esse mundo aí é aquele no qual eu coloquei três filhos, três netos. Sinto-me na obrigação de zelar por ele. Não é apenas o "meu" mundo. Ele é o "nosso" mundo.
      
      O meu sorriso, ao acordar, de pronto morre. Basta eu abrir as janelas. Lá fora o cinza já tingiu o céu. Que pena! Vocês dirão: Mude-se para o campo! Tão fácil, não é? Eu até poderia... Mas estaria fugindo do problema e eu não sou disso. Eu me vou para um cantinho azul. E os que ficam? E os que não podem ir? Vocês me dirão: Problema deles! Mas eu rebato: PROBLEMA NOSSO! E essa é a minha luta. Sei que  estou dando murros em ponta de faca, mas vou continuar até que não tenha mais mãos. E não pensem que não sou igual a todos, que me considero dona da verdade, superior até. Nada disso! Sou exatamente igualzinha a você que me lê. Apenas acredito que, na fila dos valores, devo ter entrada mais de dez vezes na porta onde se lia "coragem".
      
       Bem, logo depois da poluição cinza, ligo-me nos noticiários. E o que vejo? Mães matando filhos, policiais sendo apontados como assassinos, políticos endeusando-se do que fizeram como se não fosse OBRIGAÇÃO deles realizar o que é melhor para o povo, toneladas de apelo ao consumismo, detalhes pormenorizados de como uma bandido executou um crime, explorações da desgraça alheia para o maldito IBOPE, exposição de intimidades com a falsa pretensão de melhorar a vida a dois. Vez ou outra, algo como: um qualquer achou uma mala com dinheiro e devolveu ao legítimo dono. Isso tudo sem falar na JUSTIÇA. Sentenças baseadas em suposições, leis usadas para beneficiar bandidos e criminosos, juízes presos ( quando conveniente) a normas legais para para justificar a sua incompetência na visão do que é verdadeiramente justo, professores empenhados apenas em difundir conceitos de extremo socialismo, indivíduos desviados da sua própria capacidade de discernimento em nome de um idealismo comprovadamente falido, ídolos da nossa juventude dando exemplos da degradação humana, figuras esqueléticas em capas de revista como modelo de beleza levando nossas jovenzinhas, subjugadas e patéticas, a um falso conceito de saúde. Não aceitam rótulos, mas rotulam-se por conta própria. Sexólogos??? Por acaso vocês estão de acordo com o que estão impondo aos nossos jovens? Por acaso já viram um programa de uma tal PENÉLOPE? Desculpem! Deu-me vontade de vomitar!
      
       Pais! Ah! Os abençoados! Buscam tanto o "ter mais" que se esquecem dos filhos, relegados a cuidados de outros tantos mal preparados ou os abandonam em nome da própria felicidade. Isso sem contar os mais necessitados que colocam filhos no mundo porque terão  alguns reais a mais, a começar do parto. Quanto mais filhos, mais dinheirinho fácil.
      
    Que mundo é esse? Uns gatos pingados se mexem para fazer algo, mas apenas combatem as conseqüências e não conseguem enxergar as causas. Que mundo é esse, tão algemado aos seus direitos que relega seus deveres a segundo plano?
     
      Decepem as cabeças que se recusam a pensar,  arranquem-se os olhos que não querem ver, cortem-se fora as línguas dos que têm força para conduzir um rebanho e só pensam no proveito próprio, morram engasgados com as próprias palavras os que tem o dom do convencimento e dele usa para o descaminho.
      
      Perdoem-me os que esperam de mim palavras de amor. Hoje sinto-me corroída pelo excesso dele. Perdoem-me os que não vêem beleza nos ensinamentos de Cristo. Eu vejo. Também sei que até ele foi capaz de levantar o chicote... Perdoem-me os que acham que tenho uma visão pessimista. Mas, por favor, convençam-me do contrário. Se conseguirem, garanto que ficarei feliz e eternamente grata.
       
     Tenham uma linda noite! Hoje eu não conseguirei!
 
 
Em São Paulo, às 19 horas e 11 minutos do dia 24 de setembro de 2008.
Ainda bem que é primavera

 

 

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Página editada por Cleide Canton em 20 de março de 2012

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