OBSERVÂNCIAS

Cleide Canton

 

        Ainda não descobri a técnica de enxergar primeiro os detalhes, mas tenho uma facilidade incrível para ver o todo. Nem sei se isso é defeito ou qualidade e também não me importo.

 

        Conversando com um amigo, lembrou-me ele de um pensamento chinês que diz que a pulga, por causa de suas pernas curtas, desenvolveu um grande salto  ao que retruquei dizendo que as cobras, sem pernas, desenvolveram um modo rápido de locomoção. A natureza é magnânima. Permite a evolução de mecanismos de sobrevivência ao mesmo tempo em que deixa algumas brechas para o equilíbrio da cadeia alimentar. Se permitirmos que a natureza aja sozinha a vida será equilibrada.

 

        O homem, esse “todo” maravilhoso, é um complexo ajuntamento de detalhes. Nascendo, crescendo, multiplicando-se e morrendo. É a sua natureza. No entanto, quantas são as suas necessidades! Estão todas lá, armazenadas no seu íntimo, algumas mais afloradas pela influência do meio em que vive. Basta que uma dessas necessidades não seja provida para que ele entre em desequilíbrio, imaginando-se sem saída ou lutando para sair. Então, na multidão encontramos os bons e os maus, os alegres e os tristes, os líderes e os seguidores, os corajosos e os covardes, os guerreiros e os pacíficos, os vencedores e os perdedores, os sadios e os doentes, os tranqüilos e os agitados, os que servem e os que esperam ser servidos, os verdadeiros e os falsos, o mocinho e o bandido, os crentes e os ateus, o aparecido e o escondido, etc...etc...etc... Todos eles conseqüências de suas experiências de vida.

 

        Quando conheço alguém, vejo o todo. À medida que o conhecimento se aprimora, as virtudes e os defeitos afloram... Ninguém é perfeito. Pouco a pouco chego aos detalhes. Observo sem julgar. Não tenho esse direito. Muita vez o defeito de um outro acaba por mostrar o meu próprio. Isso é maravilhoso e me permite crescer, melhorar. Outras vezes me deparo com atitudes, palavras ou mensagens de alguém que já conheço, lindas, tocantes, contrariando suas próprias atitudes. Acredito que seja o “outro eu” dizendo: seja você, faça você.

 

        Mas, como disse, vejo primeiro o todo. Quando os detalhes vão aparecendo, o primeiro conceito vai sendo enriquecido. E, por essas razões, continuo amando e respeitando o ser humano, sempre tão cheio de novidades e surpresas.

 

SP, 06/08/2004

15:07

 

   FORMATAÇÃO DE CLEIDE CANTON
 
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Página editada por Cleide Canton em 24/05/2006

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