NEGATIVO

Cleide Canton
 
Por mais que eu ouse e tente
e de tudo te afugente,
tua sombra não me deixa.
Fui cair nas artimanhas,
no mel das tuas façanhas,
na lábia da tua queixa.
 
Não te culpo, eu me amarro
no que faço e tiro sarro,
 acabo me dando bem.
Também uso e não abuso,
nunca entro em parafuso.
Só faço o que me convém.
 
Mas essa sombra maldosa
(que aparece toda prosa
na minha visão serena)
não respeita o meu espaço,
se mete em tudo que faço
e comigo contracena.
 
Pois então eu decidi
e só p'rá você me vesti
de bruxa na lua cheia.
Joguei teu nome do tacho,
fiz na encruza o meu despacho
com aparatos de ceia.
 
Do retrato o negativo
que usei como aditivo
no fogo já derreteu.
E a cueca desgastada
que sobrou do nosso nada
sob a terra se escondeu.
 
Fico aguardando a resposta.
Não ganha quem não aposta
neste jogo de maldade.
Tiro você do caminho,
não mais me firo no espinho,
espanto a malignidade.
 
Faço e não desfaço!
Etc...etc... Ponto e traço.
Tomo meu banho de cheiro,
digo adeus ao cansaço,
perfumo este meu espaço
e abraço o meu travesseiro.

O sonho me traz alegria.
Uma bruxa, quem diria,
saiu-se bem na festança.
De mansinho foi-se embora
matando no meu agora
o desejo de vingança.

SP, 10/08/2005-14:00 horas
Alterado em 22/03/2015-19:00 horas

 

Midi:
Filho da véia - Luis Américo e Braguinha
Arte:
 Cleide Canton
 
 
 
 
 

 
 

 

Página editada por Cleide Canton em 10/10/2005

 

  online