ETERNOS JANEIROS
Cleide Canton
 
 

São intensos os meus janeiros,
e não se perdem
no desenrolar do tempo,
nem trazem a marca das chuvas
que destruíram
as mudas recentes,
plantadas no jardim
onde ainda permanecem, firmes,
as flores das minhas conquistas,
 onde minhas inglórias
servem de adubo
para que as formas e os coloridos
se entrelacem em harmonia
e  reste ao meu olhar
o quadro incompleto e imperfeito,
ainda sem moldura,
que retrata, em toques rápidos
e nem sempre precisos,
o peso dos meus erros e acertos,
no caminho que escolhi
e até hoje percorro.
São janeiros aclamados,
onde a luz do novo
tinge de prata os desenganos
que nunca tardam a ser massacrados
por um sorriso de fé,
por uma força que me impulsiona
a esperar também
por tudo que talvez não aconteça. 
A força das lágrimas e dos desencantos
tombam-me o rosto
no peso dos meus agostos,
mas não dobram meu corpo,
mesmo na ousadia de passos incertos,
onde o risco existe,
talvez para dar um toque especial
a cada pequeno momento
em que, causas e conseqüências,
provoquem uma alegria a mais,
um arremate dourado
na tela das minhas verdades,
um sabor adocicado
no alimento que me mantém,
uma dose de licor
no final de cada luta...
São meus os janeiros,
únicos e intransferíveis.
Ninguém conseguirá sorver
o mel ou o fel que a mim foi destinado
como jamais conseguirão entender
as minhas palavras trançadas,
os meus atos em cadeia
ou meus sonhos guardados,
protegidos pelas chaves
do desejo de ser, de realizar,
de acrescentar sempre...
São meus os janeiros,
sem direito à meação,
doação, partilha ou herança.
Eterna e egoisticamente meus...

 
SP,02/10/2006
18:10 horas
 
Texto inspirado num BOA TARDE
de Angélica Almstadter
 

 
 FORMATAÇÃO DE SIMONE CZERESNIA
 
 
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Página editada por Cleide Canton em 13/11/2006

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